Beta Caseína A1A2
A
Faculdade Penn State lançou um curso livre online na Primavera
passada. O curso incluiu uma secção de genética. O tema que surgiu
com mais frequência no fórum de discussão desta secção
referiu-se ao leite A2, um tema que merece, certamente,
discussão.
Para
aqueles que não estão familiarizados com a temática do leite A2
fica uma pequena introdução: a beta caseína constitui
aproximadamente um quarto das proteínas do leite, existindo várias
versões do gene que a codifica. A beta-caseína do tipo A1 é a mais
comum na constituição do leite sendo composta por uma cadeia de 224
aminoácidos e tem um aminoácido diferente da beta-caseína do tipo
A2.
Debate
aceso
A
controvérsia que rodeia o debate A1 vs A2 tem a ver com a sua
digestibilidade sendo que a comunidade científica não estar
totalmente de acordo quanto aos efeitos na saúde de beber leite com
um ou outro tipo. Inicialmente foi sugerido que o consumo de leite A1
poderia aumentar a probabilidade de desenvolvimento de diabetes,
porém estudos mais aprofundados e controlados não apoiaram essa
hipótese.
No
entanto, surgem agora estudos mais recentes que merecem atenção.
Recorrendo a testes em ratinhos foi possível verificar que havia
realmente diferença a nível de inflamação intestinal: o grau de
inflamação era maior em ratos que tinham consumido leite A1. Da
mesma forma, testes em humanos revelaram níveis mais elevados de
desconforto gastrointestinal em participantes que consumiram leite
A1. De realçar que a prova era cega e, portanto, os participantes
não sabiam que tipo de leite estavam a beber.
Muitas pessoas
que acreditam ser “intolerantes à lactose” podem, na verdade,
ser apenas sensíveis à beta-caseína A1. Estudos mais alargados
serão agora necessários para comprovar se realmente o leite A2 é
mais vantajoso para a digestão.
Genética
em ação
A
genética da beta-caseína não encaixa na dualidade
dominante/recessiva. As vacas com duas cópias do gene A1 irão
produzir apenas leite com beta-caseína A1, enquanto aquelas com duas
cópias do gene A2 irão produzir apenas A2. Vacas que herdem A1 a
partir de um dos progenitores e A2 a partir do segundo produzem leite
com uma mistura de beta-caseína A1 e A2. Por esta razão, as vacas
devem ser homozigóticas para A2 para serem consideradas produtoras
de leite "A2".
A frequência do alelo A2 parece ser
de cerca de 60% em Holsteins. Isto significa que cerca de 36% da raça
Holstein produz leite A2, 48 por cento produz uma mistura de leite
com A1 e A2 e 16% a produz leite exclusivamente com A1. Outras raças
têm uma proporção mais elevada de A2. Julga-se que a raça
Guernsey tenha uma frequência mais alta do alelo A2 aproximando-se
dos 90%. Com o objetivo de capitalizar mais plenamente esta sua
vantagem, as associações da raça Guernsey de alguns países não
permitem que touros homozigóticos para A1 sejam
reprodutores.
Canais
de marketing
Produtos
lácteos denominados A2 são licenciados e comercializado nos Estados
Unidos pela Companhia a2 Milk com base na Nova Zelândia. A empresa
possui a patente para o teste A2 e, por esta razão, os produtores
não podem simplesmente testar as suas vacas e comercializar o seu
próprio leite como A2, sendo necessário contactar a empresa para
obter direitos de licença. Isto cria uma vantagem para alguns
criadores de Guernsey que são capazes de colocar leite deste tipo no
mercado baseados na frequência elevada de leite A2 na raça sem ser
preciso recorrer a testes. A Companhia a2 Milk recolhe o seu leite a
partir de muitos tipos diferentes de explorações agrícolas,
incluindo grandes efetivos de raça Holstein que têm em ordenha
vacas homozigóticas para A2 como uma linha à parte. Atualmente,
cerca de 2 litros de leite A2 são vendidos por um preço semelhante
a 2 litros de leite orgânico.
Os esforços de marketing da a2
Milk para entrar nos Estados Unidos começaram em 2015, mas estão já
muito ativos na Austrália e Nova Zelândia há mais de uma década.
A companhia a2 Milk representa atualmente cerca de 9% do mercado de
leite no retalho australiano. O leite fluido é, atualmente, o
produto A2 primário, mas as fórmulas infantis e outros produtos
começam já a entrar no mercado.
É certo que para os
produtores o caminho do leite A2 é cheio de incertezas. Nenhum
produtor quer ignorar preocupações legítimas de saúde humana mas,
por outro lado, não podem dar-se ao luxo de mudar constantemente a
direção do seu programa de seleção genética para ir ao encontro
de alegações ainda ténues.
Concluindo, parece aconselhável
levar em conta o fator A2 no programa de seleção do seu efetivo.
Não será necessário eliminar os touros não-A2, no entanto, se
dois touros têm características semelhantes fará sentido valorizar
e selecionar aquele que é A2 em detrimento de um que seja A1. Elevar
de forma estável e firme a frequência de A2 irá causar menos
perturbações no seu efetivo se as mudanças no mercado de leite
seguirem essa direção no futuro.
Adaptado pela Equipa MilkPoint a partir do original publicado em Agosto de 2016 por Chad Dechow em Hoard`s Dairyman.
